quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Livro, Parte 1, Capítulo VIII, O pesadelo

Olá,

Segue o capítulo VIII do livro Sou portadora da Síndrome de Stevens Johnson e quero ser mamãe. E agora?

Boa leitura!!!

Beijos e queijos...

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VIII

O pesadelo

A notícia caiu como um balde de água fria. Entrei em desespero. Não sabia se permanecia ali ou se fugia para bem longe.
Enquanto o médico explicava, em detalhes, o que eu tinha, meus pensamentos voavam, atropelando os tempos verbais, ora indo para o passado, ora voltando para o presente. E o futuro? O futuro, a Deus pertencia. Era a minha estratégia de sobrevivência.
Sentia saudades de tudo, até das coisas não vividas.
As imagens surgiam como num filme sem roteirista, quadro a quadro e sem sequência.
A dor da alma era pior do que a dor do corpo. Ela estava me consumindo lentamente e, aos poucos, me definhando.
Como foi difícil ouvir tudo aquilo!
Eu não acreditava e não aceitava aquele diagnóstico.
Abriu-se um abismo. Tentava me equilibrar, mas a passagem era tão estreita que, a cada segundo, a vida se esvaía.
Chorei muito. Meu desespero vinha da alma, não me conformava com aquela notícia. Via o filme de minha existência passar pela mente, não sabia que caminho seguir nem por onde começar. Senti, na própria pele, a dor das pessoas que descobrem ser portadoras de uma doença grave.
Com apenas vinte e nove anos de idade, era jovem demais para cair nessa armadilha do destino.
Em mil novecentos e noventa e nove tinha acabado de concluir o curso de Gestão de Processos Comunicacionais – pós-graduação lato sensu – na Escola de Comunicações e Artes da USP e no início de dois mil, estava me preparando para o mestrado. No final de abril os professores da Universidade entraram em greve e só retornaram em junho. Daí não foi possível continuar, pois estava muito debilitada. Nem cheguei a fazer o exame de proficiência[1], um dos requisitos básicos para ingressar no curso.
À medida que o médico esclarecia, parecia não ouvi-lo. Entrei em estado de choque e permaneci sentada na cadeira, calada, tentando digerir aquela notícia. A vontade que eu tinha era de sair correndo, sem direção e nem olhar para trás. Fugir sem ter que dar explicações a ninguém. Esconder-me de tudo e de todos, entrar num guarda-roupas. Meu maior desejo, naquele momento, era me transformar numa ostra e a natureza se encarregasse de me transportar até uma praia. Dali cairia ao mar e lentamente desceria às profundezas.
Foi terrível me deparar com aquela triste e dura realidade. Sinceramente, não merecia passar por tudo aquilo. Era uma prova de fogo, um pesadelo.


[1]Exame de aptidão em uma língua estrangeira para a leitura (entendimento) e desenvolvimento de textos.

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