quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Livro, Parte 1, Capítulo XXVIII, A recuperação no hospital

Olá,

Segue o capítulo XXVIII do livro Sou portadora da Síndrome de Stevens Johnson e quero ser mamãe. E agora?

Boa leitura!!!

Beijos e queijos...
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XXVIII

A recuperação no hospital

            Durante o processo de recuperação, minha mãe passou a “dormir” no mesmo quarto comigo e mais três enfermas.
A medicação era dada nos horários determinados pelos médicos.
Por causa da gravidade do meu estado, fui transferida para outro quarto, pois precisava ficar isolada devido ao estágio ou estado de depressão imunológico (ou imunodepressão) o que tornava o meu organismo suscetível a qualquer doença, sem falar da pressão psicológica que eu não deixava transparecer.
Eu tinha medo da noite porque meu drama era maior. Para dormir, minha mãe precisava velar meu sono, pois a qualquer momento poderia morrer engasgada com a saliva ou sangue.
Durante a noite, eram necessários soros fisiológicos, pacotes de gazes e hastes flexíveis para a higiene, além de dez lençóis para enxugar o suor do meu corpo e as secreções vindas da boca e dos olhos.
Não suportava nem o meu próprio cheiro. Se pudesse, passava o dia inteiro tomando banho. Como não era possível, por causa da facilidade em perder as veias em consequência dos movimentos nos braços – uma, às vezes, duas ou três por dia – apelava para os produtos de higiene à disposição. Todos neutros.
Ao alvorecer, só nos olhos, utilizava dez hastes flexíveis embebidas com soro fisiológico, cinco para cada olho, por causa das secreções que me impediam de abrir as pálpebras. Esse ritual se repetia, pelo menos, oito vezes ao dia, num total de oitenta hastes diárias, ou toda vez que adormecia e acordava, além do uso de três tipos de colírios a cada hora.
A secreção vinda dos olhos, às vezes, era pus misturado com sangue. E como isso acontecia sempre, era necessário a minha mãe interromper a higiene e recomeçar num outro momento, por causa das dores e da dificuldade de limpá-los. Por ser uma área muito sensível, fiquei com a visão comprometida, a ponto de as imagens ficarem desfocadas e, em seguida, desaparecerem.
Desde o agravamento do meu estado de saúde, a cada entardecer era visitada por uma febre que girava em torno dos trinta e oito graus e meio. Sentia muitos calafrios, meu corpo tremia e suava ao mesmo tempo. Meu medo maior era de delirar por causa da febre e perder totalmente a lucidez durante todo o processo de recuperação.
Após seis dias de internação no setor de dermatologia − sim, porque o caso foi diagnosticado como sendo de queimadura −, finalmente um médico, doutor Rafael[1], se apresentou, assumindo toda a responsabilidade. Até então, nenhum especialista queria pegar o meu caso. Muitos diziam estar no quarto errado ou que eu não era a paciente deles e saíam apressados.
Doutor Rafael começou a me examinar. Fisicamente eu parecia estar morta.
A primeira providência do médico dermatologista foi pedir para fazer raios-X do tórax e colher amostras de sangue e urina com o intuito de saber a procedência da febre e onde estava (m) situado(s) o(s) foco(s) inflamatório(s).
Os enfermeiros foram orientados a dar a medicação no horário certo.
A dedicação do médico foi muito importante para mim durante todo o período de recuperação. Não media esforços e toda manhã me examinava cuidadosamente.
Os dias se sucederam amargamente, pois o meu organismo não reagia com o uso das medicações. Eu não apresentava melhoras.
Depois de uma semana internada na dermatologia, além do doutor Rafael, outros médicos começaram a me visitar.
Primeiro o cardiologista, Dr. Romeu[2], depois o gastroenterologista, o oftalmologista e por último o neurologista.
A cada dois dias eram colhidas amostras de sangue. O resultado do hemograma era comemorado e a felicidade do doutor Rafael era contagiante. Dizia para mim que o meu organismo estava reagindo e apresentando melhoras, apesar de não evidenciadas.
Quanto a mim, não tinha outra coisa a fazer senão confiar nas palavras do meu médico. Tinha que acreditar em algo, afinal, estava sofrendo muito.
Aquela situação já estava entrando na segunda semana. Como se não bastasse, ainda não havia saído o resultado do exame (biópsia) para saber se o tumor cerebelar era maligno (câncer). Graças a Deus que o resultado deu negativo para a malignidade. Era um Astrocitoma Pilocítico.[3]
Doutor Rafael também demonstrava uma certa preocupação com os meus olhos. Sempre perguntava para a minha mãe se o oftalmologista solicitado por ele havia me examinado. O especialista fazia parte do grupo de córnea.
Por orientação do oftalmo, a higienização na região ocular, descrita anteriormente, passou a fazer parte de um ritual diário e todas as vezes que as secreções escorriam.
Certo dia, fui levada numa cadeira de rodas para o ambulatório de oftalmologia. Não enxergava, não andava, mal falava e só babava. Estava inerte a tudo e a todos. Nem lágrima para chorar eu tinha, aliás, desde o meu primeiro dia na dermatologia, tudo em mim havia secado, inclusive a menstruação.
Já no ambulatório fui acomodada numa cadeira e o oftalmo começou a me examinar.
Com um bisturi retirou várias camadas de secreção endurecidas, responsáveis diretos pela cegueira. Depois, fiz um exame complicado: uma espécie de agulha ou espátula era introduzida na parte interna da pálpebra, uma por vez e, ao ser retirada, eu tinha a sensação de que meu globo ocular também saía. Comecei a passar mal e precisei ser levada de volta ao quarto.
No dia seguinte, o oftalmo e um auxiliar foram me visitar no apartamento (quarto) e levou consigo o bisturi para a retirada dos restos das camadas de secreção.
Com todo o cuidado fez a higiene local. Com aquele procedimento e os cuidados de minha mãe, consegui enxergar novamente e, a partir daquele momento, encontrei uma razão para viver.
Tudo bem que estava com dez por cento da capacidade visual, mas já era um bom começo, afinal, a esperança tinha voltado.
Quanto às bolhas de sangue, haviam secado, caindo uma a uma. Os locais mais afetados haviam sido as regiões bucal e ocular.
Na sexta-feira, primeiro de dezembro de dois mil, recebi alta do doutor Rafael.
As recomendações foram as seguintes: antes de tomar qualquer medicamento, ler a bula; na dúvida, tomar só paracetamol (anos depois, passei a evitar esse medicamento a conselho de uma amiga, médica); não se expor ao sol, especialmente entre dez e dezesseis horas, mesmo na sombra; usar protetor solar, fator 30, no mínimo; produtos higiênicos, só neutros e infantis; fugir de fragrância e odores acentuados e, por último, se cuidar. E com essas palavras ecoando em minha cabeça, voltei para casa.


[1]Dr. Rafael – nome fictício.
[2]Dr. Romeu – nome fictício.
[3]Op. Cit. Parte 1. Cap. I. p.12.  
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AMANHÃ TEM MAIS!!!!

1 comentários:

Grazielle Guilherme (Apreciadora de vinhos) on 30 de dezembro de 2012 19:38 disse...

Passei por tudo quer vc passou Cleivania! Estou me vendo nestas linhas, era muito nova, mas lembro de tudo, tive muito medo! OImagina vc com 5 anos de idade sofrendo com as queimaduras e vendo sua mãe chorar, mesmo sabendo que não poderia fazer nada, devido aos procedimentos médicos que eram necessários.
Olha, foi muito dificil e uma barra que enfrento até hoje....

Mas , stmoas ai vivas e seguindo nossa trajetória,,,minha doficuldade hoje é trabalho, pois as empresas sempre acabma me dispensando quando falto mais de uma vez por causa das irritações que costumo ter, devido a sensibilidade,,,,Tem alguma coisa que eu possa fazer ou recorrer Cleivania??

Abraços!

Grazi

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